Quase não te vi. Tão mergulhada estavas nas sombras do quarto e na penumbra dos teus pensamentos.
Aproximei-me com receio. Mas logo que me viste a tua atenção voltou para fora. Os teus pequenos braços rodearam o meu colo e os teus olhos tão tristes desenharam um pequeno sorriso por entre as lágrimas.
Eu já sabia das tuas penas, minha pequenina Gala. A tua mãe já me dissera:
-Não vais acreditar, a menina vem das férias com depressão!
Assumindo o meu papel de pessoa mais velha, perguntei e tentei consolar-te. Surpreendida disseste:
-Mas é que já não te lembras dos Verões?
Nesse momento, aconteceu o feitiço. Não sei se foi o gosto dos teus lábios salgados pelas lágrimas ou o teu cheiro ainda húmido a mar o que parou o tempo.
E, ó maravilha! O quadrado do quarto desapareceu e, em redor da luz, senti o mar reflectido no meu corpo. Banhada por essa luz e por esse mar, regressei e o Verão o invadiu tudo. As sensações atropelavam-se. Senti o perfume do orégão, a pedra e a cal, a brancura do sal, a claridade, a sombra...
E pegaste na minha mão, pequena Nereida loira e puseste nela um búzio. Ouvi o grito da cigarra e o silêncio das noites de luar.
Plenas de felicidade, dançámos e dançámos e dançámos e...
-Ainda pensas que posso ter consolo?
Abri os meus olhos que, até então, tinham permanecido fechados. O Verão desapareceu e voltaram as trevas do quarto. Eu não disse nada. Abracei o teu corpo leve e dormimos um sonho cheio de compreensão.